sexta-feira, 14 de maio de 2010

Movido a adrenalina

Ele queria ser médico, mas achou que não conseguiria conviver com a morte. Hoje, Humberto Trezzi não se lembra da última vez que deu uma notícia boa. Jornalista há 26 anos, trabalha na editoria de Geral da Zero Hora, onde se acostumou a lidar com cenas como acidentes, mendigos agredidos. Em 2009, passou cinco dias cobrindo a guerra dos cartéis instalada em Ciudad Juárez, no México. Apenas nesse período, foram contabilizadas 60 mortes na região. Essa foi a vez em que mais temeu pela sua segurança. Com pele e olhos claros, Trezzi se tornava um alvo para os sequestadores, que visavam aos estrangeiros pela garantia de ter o resgate pago.

No Brasil, só ao Rio de Janeiro, foi 20 vezes para cobrir questões ligadas ao narcotráfico. Na Favela Dona Marta, em companhia do fotógrafo Ronaldo Bernardi, sentiu o pavor de estar entre uma troca de tiros - muitos direcionados à lente da câmera de seu colega.

Ainda assim, Trezzi escolhe seguir nesse meio. "Tem que gostar de adrenalina, desenvolver frieza", explica o jornalista. Quanto às ameaças que recebe por contrariar interesses - desde o tráfico até setores públicos - ele diz não se preocupar. "Eu tenho cobertura de uma estrututra gigantesca, que é a RBS", argumenta. Por essa razão, qualquer um pensa duas vezes antes de concretizar um ato vingativo.

Sua maior queixa, no entanto, são os telefonemas no meio da madrugada. A vida pessoal de quem trabalha com assuntos polêmicos é fortemente afetada. Segundo ele, é difîcil não levar a tensão pra casa. "Minha namorada cansa, muitas vezes passo a noite falando de crimes e morte", reclama.

A parte gratificante vem da repercussão. Algumas reportagens resultam em descobertas que acarretam mudanças significativas para a sociedade. Como no caso que Trezzi contou na coletiva.



Uma reportagem de resultados

Autor de diversas reportagens premiadas e de grande repercussão, Trezzi confessa um pequeno descontentamento com seu trabalho. Segundo ele, a correria da rotina jornalística, os curtos prazos, entre outros fatores, impedem que suas matérias atinjam plenamente os resultados esperados por ele. "Jamais fiquei contente com uma matéria", admite.

No entanto, ao escolher um texto que proporcionou um grande nível de satisfação, opta pela reportagem "Os fantasmas que assombram o Fome Zero", publicada em 2005 pelo jornal Zero Hora. A partir de um telefonema denúncia, o jornalista pôde descobrir o funcionamento de uma verdadeira "indústria para ficar com dinheiro" oriundo do programa social do Governo Federal, antecessor do Bolsa Família. Ao checar a lista com o nome dos beneficiários, o jornalista se deparou com um grande número de falsos atendidos pelo sistema governamental. O benefício era, na verdade, sacado por cabos eleitorais de partidos políticos de Sapucaia do Sul, município na Região Metropolitana de Porto Alegre.

Ao dar continuidade à investigação, novos casos idênticos foram descobertos em outras cidades, e entre pessoas das classes A e B - quando o auxílio se destinaria apenas à população de baixa renda. "O programa foi suspenso e 200 mil pessoas foram descadastradas por causa da matéria", afirma Trezzi, analisando o resultado da reportagem.

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